sedimento

sedimento, agregar, desagregar, ressedimentar

[EN below]

título: sedimento
material: papel e pedra moída, prateleira em madeira e duas pedras
técnica: pintura com pigmento (pedra moída) e colagem
dimensão: variável, duas faixas de papel, cada uma com aproximadamente 60 x 260 cm, uma
prateleira com superfície de aproximadamente 10 x 30 cm
data: fevereiro de 2022
Os pigmentos resultam da moedura de rochas sedimentares que me despertaram a curiosidade e que recolhi durante caminhadas pelos montes. Cada colagem expõe uma variação de cor intrínseca à pedra que lhe deu origem e evoca a cadência da sua formação. A transparência e extrema fragilidade das colagens, e o repouso de uma pedrinha de cada tipo numa pequena prateleira, remetem para as tramas resistência-impermanência e presença-subtileza de rochas, montes e experiência de quem os percorre.

Acerca das colagens. Com o intuito de fazer grandes superfície para a impressão manual, comecei a construir colagens de grande formato. Estas questionaram a colagem habitual, que pressupõe um suporte prévio. A partir deste questionamento comecei a criar grandes colagens de papel, tratando a colagem como a construção de um objecto escultórico, obtido por aditivação, de natureza bidimensional. Os papéis são finos, maleáveis e translúcidos. Alguns trazem marcas de usos anteriores. O processo de rasgo/corte, pigmentação e colagem, muito sujeito a falhas e erros, faz o papel perder a sua estrutura original. Com a secagem final recupera-se resistência e obtém-se uma textura dérmica, rugosa, que se alia às cores, opacidades e grãos do papel. A cor surge de impressões prévias e de pigmentos, alguns de origem natural. As composições, muito simples e claras, dão uma estrutura mínima e sublinham a vibração que resulta da variedade dos papéis, dos pigmentos e do processo de assemblage. Como as folhas de árvore, estas peças têm duas faces, a frente, mais ajustada à fruição visual, e o verso, onde o rasto do processo é mais proeminente.


sediment, aggregate, disaggregate, re-sedimenting

title: sedimento (sediment)
material: paper and ground stone, wooden shelf and two stones
technique: painting with pigment (ground stone) and collage
dimension: variable, two strips of paper, each approximately 60 x 260 cm, one shelf with a surface of approximately 10 x 30 cm
date: February 2022
The pigments result from grinding sedimentary rocks that sparked my curiosity and that I collected during walks through the mountains. Each collage exposes a color variation intrinsic to the stone that gave rise to it and evokes the cadence of its formation. The transparency and extreme fragility of the collages, and the repose of a small stone of each type on a shelf, refer to the resistance-impermanence and presence-subtlety of rocks, mountains, and the experience of those who traverse them.

About the collages. With the intention of making large surfaces for manual printing, I began to construct large-format collages. These pieces questioned the usual collage method, which presupposes a prior support. From this questioning, I began creating large paper collages, treating collage as the construction of a sculptural object, obtained through additive processes, of a two-dimensional nature. The papers are thin, malleable, and translucent. Some bear marks from previous uses. The tearing/cutting, pigmentation, and gluing process, highly prone to flaws and errors, causes the paper to lose its original structure. With final drying, it regains resistance and obtains a rough, dermal texture that combines with the colours, opacities, and grains of the paper. The colour emerges from previous prints and from pigments, some of natural origin. The compositions, very simple and clear, provide a minimal structure and emphasize the vibrancy resulting from the variety of papers, pigments, and the assemblage process. Like tree leaves, these pieces have two faces: the front, more suited to visual enjoyment, and the back, where the trace of the process is more prominent.

xilogravura de Möbius \ Möbius woodcut

xilogravura de Möbius

Em 2017 transformei uma folha de madeira numa tira de Möbius e usei-a como matriz de xilogravura, tintando a sua única face e imprimindo-a numa faixa de papel. Essa faixa é uma colagem de papéis finos e com marcas de impressões anteriores. Tendo recortado na matriz a palavra MÖBIUS, ela aparece a vazio na impressão, ora assim, ora em espelho.

A tira de Möbius tem apenas uma face, não tem frente e verso. A última imagem é um vídeo quasi-pedagógico acerca deste assunto.

A colagem de papéis uns aos outros, solução para poder fazer uma faixa de papel tão longa quanto desejasse, foi o primeiro passo para as grandes colagens que faço até hoje. Esculturas em papel vibrantes, levíssimas, translúcidas, sensíveis à luz e à aragem.

Imagens da exposição “matriz e múltiplo”, Biblioteca da FEUP, Porto, 2017
fotos 1-7 e 9 João Lopes

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Möbius woodcut

In 2017, I transformed a sheet of wood into a Möbius strip and used it as a woodcut matrix, inking its single side and printing it onto a strip of paper. This strip is a collage of thin papers with marks from previous prints. Having cut out the word MÖBIUS from the matrix, it appears empty in the print, sometimes like this, sometimes mirrored.

The Möbius strip has only one side; it doesn’t have a front and back. The last image is a quasi-educational video about this subject (in Portuguese).

The collage of papers together, a solution to make a strip of paper as long as I wanted, was the first step towards the large collages I make to this day. Vibrant, lightweight, translucent paper sculptures, sensitive to light and breeze.

travessias \ crossings

medo, coragem e travessias

[EN below]

este não é o Lethes
lápis de cor sobre papel de algodão
31 x 231 cm
(composição de 10 folhas de 31 x 23 cm)
2025

Composição completa na última imagem.

Os romanos acreditavam que o Rio Lima era o Lethes, o rio do esquecimento, e recusavam-se a atravessá-lo até o centurião Decimus Junius Brutus o ter atravessado e ter chamado da outra margem cada um dos seus homens pelo nome, provando assim que não perdera a memória.

Durante dias habitei esta lenda e foi com expectativa que fiz o desenho, folha a folha, partindo do medo que ensombra a margem conhecida, alargando a visão do rio que corre imperturbável e, lentamente, revelando uma outra margem vibrante, gloriosa e de uma garridice inesperada. Aquele, afinal, não era o Lethes.

Este desenho foi perdido por uma transportadora, foi muito triste.

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fear, courage, and crossings

este não é o Lethes (this is not Lethes)
coloured pencil on cotton paper
31 x 231 cm
(composition of 10 sheets of 31 x 23 cm)
2025

Full composition in the last image.

The Romans believed that the River Lima (north of Portugal) was the Lethes, the river of forgetfulness, and refused to cross it until the centurion Decimus Junius Brutus crossed it and called each of his men by name from the other bank, thus proving that he had not lost his memory.

For days I inhabited this legend, and it was with anticipation that I made the drawing, page by page, starting from the fear that overshadows the known shore, broadening the vision of the river that flows undisturbed and, slowly, revealing another vibrant, glorious shore of unexpected splendor. That, after all, was not the Lethes.

This drawing was lost by a shipping company, it was very sad.

diálogo radical II \ radical dialogue II

diálogo radical II

[EN below]

Trabalhar com lousa de Valongo é um desafio. Esculpir em talhe directo obriga a lidar com a grande probabilidade do bloco abrir entre duas das camadas que o compõem. O simples acto de passar uma fina lixa de água leva uma peça a partir. Qual o valor de um projecto inicial? Qual o nível de elaboração a procurar quando cada movimento traz em si a possibilidade de desintegração?

bichinho 1
2025
lousa de Valongo, talhe directo
Valongo gray-blue slate, direct carving
15 x 12 x 22 cm

Em exposição até 12 de novembro em
On display until November 12th at

“Formas de Memória”
de @alunkirby e @elianamanuelpinho

@xau.laura
Rua Miguel Bombarda, 589, Porto

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radical dialogue II

Working with Valongo slate is a challenge. Direct carving requires dealing with the high probability of the block splitting between two of its component layers. The simple act of applying fine sandpaper can cause a piece to break. What is the value of an initial project? What level of elaboration should be sought when every movement carries the possibility of disintegration?

com o outono chega a memória das flores

com o outono chega a memória das flores

with autumn comes the memory of flowers

“floresce 1”
lápis de cor sobre papel de algodão
coloured pencil on cotton paper
31 x 23 cm
2025

Em exposição até 12 de novembro em
On display until November 12th at

“Formas de Memória”
de @alunkirby e @elianamanuelpinho

@xau.laura
Rua Miguel Bombarda, 589, Porto

Formas de Memória

Exposição “Formas de Memória”
de Alun Kirby e Eliana Manuel Pinho.

De 20 de setembro a 12 de novembro de 2025.

Xau Laura
Rua Miguel Bombarda, 589
4050-383 Porto
https://maps.app.goo.gl/VQ4hk7qkzhrPdgXBA

“A memória está em todo o lado.

Ela vive connosco nos lugares que habitamos e na cultura que partilhamos.

Guardamos as nossas memórias mais preciosas em objetos, dos quais podem ser libertadas com um simples olhar ou um toque suave. Basta um som ou um cheiro para que regressem a nós.

As memórias estão presentes quando observamos uma obra de arte, fornecendo contexto, despertando a imaginação e as conexões.

Esta exposição aborda a memória sob diversas formas. Inspirado pela filosofia, pela experiência pessoal e por pessoas que vivem com demência, Alun apresenta objetos com memórias construídas, imagens que são memórias literalmente únicas e outras que incorporam conceitos filosóficos. Partindo da curiosidade pela realidade distante ou recente, Eliana baseia-se na memória de impressões sensíveis, oníricas e indefinidas, mas duradouras e persistentes, para criar desenhos e esculturas.”

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Exhibition “Formas de Memória”
by Alun Kirby and Eliana Manuel Pinho.

From September 20 to November 12, 2025.

Xau Laura
Rua Miguel Bombarda, 589
4050-383 Porto
https://maps.app.goo.gl/VQ4hk7qkzhrPdgXBA

“Memory is everywhere.

It lives with us in the places we inhabit and in the culture we share.

We place our most precious memories in objects, from which they can be released with a simple glance, a gentle touch. They come back to us via sounds or scents.

Memories are there every time we perceive an artwork, providing background, sparking imagination and connections.

This exhibition addresses memory in many forms. Inspired by philosophy, personal experience, and people living with dementia, Alun presents objects with constructed memories, images that are literally unique memories, and others that embody philosophical concepts. Departing from curiosity about the distant or recent reality, Eliana relies on the memory of sensitive, dreamlike and undefined, but lasting and persistent, impressions to create drawings and sculptures.”